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Como o álcool afeta o cérebro e como saber a hora de maneirar na bebida

Do céu ao inferno em poucas horas: a ingestão de bebidas alcoólicas afeta diretamente os neurotransmissores do cérebro, fazendo com que eles sejam liberados em quantidades diferentes do normal e aumentem o ácido gama-amino-butírico, que provoca desinibição e a dopamina, que dá uma sensação de euforia após as primeiras doses. Mas, na manhã seguinte, quando o efeito passa, o estado é completamente o oposto e pode custar muito caro.

Já quem não fez nenhum brinde nesse Carnaval pode começar a comemorar: o seu cérebro ganhou algum tempo a mais de vida e intelecto. Mas, atenção: não comemore com um brinde, afinal até mesmo apenas duas pequenas doses de álcool podem causar alterações nas áreas cerebrais responsáveis pelo processamento de informação.

Esse estrago acontece porque quando o etanol, presente nas bebidas alcoólicas, entra no corpo, ele danifica as células do cérebro, causando até mesmo a morte de algumas, já que essa é uma substância solúvel em água que se acumula em volumes críticos nos órgãos onde o sangue é mais abundante. E o cérebro é um desses órgãos.

O córtex cerebral é a área responsável por todos os processos do pensamento, de informação e consciência. O dano acumulado causado pelo álcool nessa região dificulta o pensamento logico-racional e o desenvolvimento normal da fala. Já as alterações na forma de caminhar ocorrem em função dos transtornos sofridos na área da coordenação motora.

Em altas doses, quando o álcool afeta o bulbo (parte do tronco cerebral que regula a respiração e a circulação) há risco de bloqueio na respiração. Mas, na maioria das vezes, antes disso acontecer a sonolência aparece, e muitas pessoas sentem vontade de dormir após beber e por isso (e também por sorte) acabam não chegando ao coma alcoólico.

Passado isso, vem a temida ressaca. Essa é reposta do organismo à folia que aconteceu no metabolismo. É aí que o corpo sofre uma série de mudanças biológicas. O resultado é um conjunto típico de sintomas da intoxicação.

A explicação é fisiológica: para metabolizar o excesso de álcool, o organismo acaba sobrecarregando todos os órgãos envolvidos no processo, em especial o fígado, já que é nele que são produzidas enzimas para metabolizar o etanol. Além disso, durante a bebedeira, este órgão “absorve” também a ideia de que precisa trabalhar “bêbado” e acaba pedindo mais álcool, porque entra em crise de abstinência. O resultado é dor de cabeça, desidratação, enjoo, diarreia e extremo cansaço.

Os estudos comprovam:

Cada grama de álcool consumido chega a envelhecer o cérebro precocemente em um dia e meio, segundo um estudo divulgado no último dia 30 de janeiro no Scientific Reports feito por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia (USC). Os cientistas usaram dados estruturais de imagens de exames ressonância magnética de mais de 12 mil pessoas para calcular a idade cerebral prevista de quem possui o hábito de ingerir álcool, comparando com a idade relativa do cérebro.

Os resultados também mostraram anos a menos para a massa cinzenta devido aos sinais de deterioração do órgão. E apesar das descobertas, os cientistas concluíram que outros fatores também podem levar ao envelhecimento acelerado, como a genética e o estilo de vida.

Neurodicas:

Como entender que chegou a hora de diminuir a frequência do consumo de álcool:

  1. Falhas de memória: as falhas de memória secundárias a alteração do fluxo sanguíneo nas regiões cerebrais responsáveis pela memorização de informação, por exemplo, no hipocampo, podem acontecer até mesmo depois de apenas um copo de alguma bebida alcoólica. Claro que quanto mais álcool ingerir maior a probabilidade de não se lembrar do que aconteceu.
  2. Dificuldade para assimilar as informações: Até mesmo em situações simples o cérebro periodicamente intoxicado acaba tendo que realizar um grande esforço quando recebe uma informação e tem dificuldade para processá-la.
  3. Baixa velocidade de processamento: O consumo frequente de álcool provoca mudanças negativas no córtex cerebral – área responsável pelo pensamento, imaginação e pelo processamento das informações. Se você tem o hábito de pensar muito tempo antes de responder uma pergunta ou não consegue reagir rapidamente a imprevistos, como uma reação lenta a uma buzina no trânsito, por exemplo, já é mais um sinal de alerta.
  4. Dificuldade de se concentrar: Com frequência, ao entrar no sangue, o álcool aumenta os níveis de norepinefrina, um hormônio de excitação. É ele que causa uma euforia emocional ao consumir uma bebida. Com o passar do tempo, o nível elevado desse hormônio faz com que o comportamento se torne mais impulsivo, distraído e sem concentração. Portanto, se você perde o foco em uma conversa ou enquanto realiza um trabalho, não pense que isso é apenas falta de motivação, ou déficit de atenção; o problema pode estar no consumo de bebida alcoólica.
  5. Dificuldade para se expressar: as pessoas que consomem bebidas alcoólicas com frequência têm maior possibilidade de desenvolver problemas com o vocabulário ativo. Portanto, se você não consegue se explicar porque faltam palavras, talvez deva diminuir a quantidade de drinks. E também fortalecer o hábito da leitura (ler mais) para ampliar seu vocabulário.

Referência:

Ning K, et al. Association of relative brain age with tobacco smoking, alcohol consumption, and genetic variants. Sci Rep. 2020.

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